17/07/2023

Crianças hipnotizadas pelo celular?

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Quando ia para a cozinha preparar as refeições, Carol Moreira precisava se transformar em duas. Isso porque a pequena Sofia, então com apenas 2 anos, queria abrir a geladeira, mexer no fogão, segurar as panelas, os pratos e os talheres. “Aquilo ali me matava: ela queria mexer em tudo”, diz. Para que a filha seguisse brincando sem causar maiores preocupações, Carol teve a ideia de comprar uma minicozinha, mas não encontrou nenhum modelo atrativo no mercado. Foi quando decidiu fazer o brinquedo por conta própria, todo em madeira. 
Aquela mini cozinha fez tanto sucesso que virou negócio. Hoje, Carol comanda o Ateliê Materno, um e-commerce de brinquedos de madeira para crianças de 1 a 7 anos. Ela afirma:

 

“O Ateliê Materno surgiu de uma forma extremamente despretensiosa. Eu jamais imaginaria que aquela cozinha poderia gerar o que gerou”
 

De 2015 pra cá, a empresa cresceu em número, oferta e alcance: hoje são nove produtos diferentes com entregas em todo o país. Para este ano, a empresa planeja um faturamento de quase 3 milhões de reais.
 

UMA GRAVIDEZ INESPERADA MUDOU SEUS PLANOS E A LEVOU A VIVER UM TEMPO EM MOSCOU COM O ENTÃO NAMORADO

Nascida em Belo Horizonte, Carol sempre teve muita dificuldade para se encaixar no sistema tradicional de ensino. A dislexia, o TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade) e a bipolaridade são alguns dos fatores. 
Em compensação, ela sempre teve facilidade com atividades dinâmicas que envolviam o relacionamento com pessoas. Aos 18 anos, começou a trabalhar com atendimento ao cliente em um quiosque da empresa Chilli Beans, no Diamond Mall, shopping da zona sul de Belo Horizonte. Carol diz que era uma das melhores vendedoras. 
 

“Foi ali que eu consegui entender essa sistemática do trabalho e descobri minha veia comercial e criativa”
 

Carol se envolveu com atividades que envolviam essas habilidades, como gastronomia, publicidade e cinema. Nesta última, ela foi mais longe: iniciou uma faculdade pelo Centro Universitário UNA e, no último semestre, conseguiu uma bolsa de seis meses para terminar o curso na Escola de Cinema de Barcelona, na Espanha. 
A proposta coincidiu com a ida do então namorado, Rivadávia Coura, 39, para trabalhar em uma agência de publicidade em Moscou, na Rússia. O casal se encontrava de tempos em tempos e, no quinto mês do intercâmbio, Carol descobriu que estava grávida. Era final de 2012. 
 

“Fiquei bem assustada, não estava nos meus planos. Mas encarei como uma missão: é isso, então, vou ser mãe”
 

Carol decidiu deixar o curso de cinema e se mudou para Moscou. Com sete meses de gravidez, o casal voltou para o Brasil e Rivadávia logo recebeu uma proposta para trabalhar em agência de publicidade em Florianópolis, onde estão até hoje.
 

APÓS CONSTRUIR UMA MINICOZINHA PARA SUA FILHA, ELA RECEBEU CENTENAS DE MENSAGENS DE INTERESSADOS


Com o nascimento de Sofia, Carol decidiu se dedicar de forma integral aos cuidados com a filha e as tarefas domésticas.

“Decidi virar aquela mãe tranquila, sabe? Que leva em tudo, fica na porta da escola conversando, faz as coisas de casa”, brinca Carol, que logo entendeu que ficar por conta de uma criança não tinha nada de “tranquilo”.

Quando os desafios na cozinha se intensificaram e surgiu a ideia de fazer o brinquedo, ela se inspirou na pedagogia Waldorf e no Método Montessori, que incentivam a autonomia, o desenvolvimento psicomotor e a criatividade das crianças. 
 

“Sofia estava me imitando em tudo. Fazer a minicozinha de madeira  foi uma forma de deixar ela experimentar essa fase de uma forma lúdica, imaginando, imitando”
 

Carol conta que sempre incentivou um brincar mais analógico e fora das telas. Após receber elogios de familiares e amigos, ela pensou em oferecer o serviço para outras pessoas e apoiar pais e mães que enfrentavam a mesma situação. 

Assim, ela fez um post em grupos sobre antroposofia e pedagogia Waldorf com a expectativa de produzir um ou dois brinquedos por mês. O que ela não esperava era receber uma chuva de pedidos: apenas naquele dia foram mais de 600 mensagens. 

“Na hora que eu vi aquilo, pensei: existe um buraco gigante, um nicho a ser explorado…”. Naquele momento, ela vendeu 22 cozinhas.
 

QUANDO PERCEBEU, CAROL ESTAVA VIRANDO MADRUGADAS PARA DAR CONTA DE TODA A DEMANDA


Para o processo de produção da minicozinha de Sofia, que durou um mês, Carol comprou a madeira, enviou a proposta para um marceneiro, escolheu as cores com a filha, lixou, pintou, costurou a cortina e montou o brinquedo. 
Para a fabricação dos novos brinquedos, o maior desafio foi encontrar uma sistemática de produção, ou seja, um jeito de produzir em escala, preservando o traço artesanal e a qualidade do produto. Outro desafio foi a gestão do tempo, já que Carol estava à frente de todos os setores: atendimento ao cliente, comunicação, logística, contabilidade etc. 
 

“Quando assustei, estava pintando cozinha até 3 horas da manhã, sem comer, sem beber água, sem ir ao banheiro. Eu queria muito que desse certo e fiquei muito envolvida”
 

Nesse ritmo, era possível produzir cerca de 30 minicozinhas por mês. Porém, com uma demanda cada vez maior, o prazo para a entrega dos brinquedos girava em torno de 90 dias — e algumas pessoas começaram a desistir da compra. Foi quando Carol decidiu buscar uma fábrica. A ideia era encontrar um local capaz de produzir em larga escala para poder se dedicar à parte mais estratégica do negócio. Essa mudança aconteceu em 2017 e, desde então, ela diz que a empresa não parou mais de crescer.
 

O ATELIÊ MATERNO ENTREGA MILHARES DE BRINQUEDOS POR ANO E TRABALHA PARA AUMENTAR SEU PORTFÓLIO

Com o aumento da capacidade de produção, houve também uma diversificação das opções. Hoje são nove produtos: cozinha, oficina e mercadinho (nos tamanhos mini e compacto), geladeira, berço de boneca e carrinho de boneca. 
Além destes itens, a empresa vende acessórios feitos por parceiros, como frutas, panelinhas, cafeteiras e caixinha de ferramentas, todos em madeira. A maior parte das vendas é B2C, mas o Ateliê Materno também atende B2B. 
 

“Setenta por cento das nossas vendas são focadas no varejo; os outros 30% são no atacado. A gente entende que os representantes com loja fazem esse papel de apresentar o nosso produto fisicamente”
 

A precificação é feita através de um benchmarking que avalia o produto no mercado. No ano de 2022, a empresa vendeu 6 500 itens. Para dar conta de todo o processo, a equipe conta com nove pessoas para logística, tecnologia, atendimento ao varejo, atendimento ao atacado, marketing e financeiro. Carol acredita que, além do design das peças, que conjuga cores e formas leves com a solidez da madeira, o grande diferencial dos produtos do Ateliê Materno é a possibilidade de gerar conexão:
 

“A gente começou em 2015, na escalada do uso de tecnologias como smartphone e tablet. O nosso brinquedo se conecta com as crianças e permite que elas usem menos tela, que tenham um brincar mais analógico”
 

O próximo lançamento acontece no dia 11 de julho deste ano, quando a empresa lança o carrinho de picolé em duas versões: listras amarelas e listras rosas. Além de novos brinquedos, Carol quer investir em móveis e decorações, como berços, camas, cômodas, tapete, papel de parede, quadros, entre outros itens. Sentimos necessidade da nossa audiência ter tudo em um lugar só”, diz Carol. “Hoje a gente acompanha a criança, mas queremos acompanhar a família nessa jornada.
 

A EXPERIÊNCIA MATERNA COMO ALAVANCA DO NEGÓCIO

Para manter e expandir a empresa, Carol precisou reorganizar a sua rotina dentro de casa. A primeira dificuldade foi ter espaço e tempo para criar:  
“A mãe está sempre sobrecarregada. Ela pode estar 24 horas dedicada aos filhos que ela vai estar exausta” . 

Para poder se dedicar ao Ateliê Materno, Carol contou com uma rede de apoio emocional e financeiro. “Essa é a oportunidade que muitas não têm”, afirma. Hoje, além de Sofia, que já está com 9 anos, a família cresceu com a chegada de Lina, 6, e de Leon, 4. Por meio do empreendedorismo, Carol encontrou um caminho para se desenvolver profissionalmente. Algumas decisões fizeram toda diferença, como a escolha de trabalhar durante os dois primeiros anos sem tirar um salário. 
 

“Todo dinheiro que entrava na empresa era reinvestido. Só comecei a tirar algo em 2017, quando as coisas começaram a andar”
 

Apesar da situação estável, as dúvidas persistem: “Hoje mesmo eu acordei me questionando”, diz Carol, rindo. “A empresa cresceu e os desafios são maiores. São nove pessoas que esperam um retorno financeiro, intelectual e de bem estar na sua vida. É uma grande responsabilidade.” Um dos maiores aprendizados foi entender que nem sempre é possível se dedicar com igual engajamento a todas as responsabilidades.
 






 

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